sexta-feira, março 20, 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Dois elementos se destacam no modo como Birdman apresenta ao espectador sua narrativa: a metalinguagem e o artifício. Duas características que se completam ao longo do filme, mas que, de tão evidentes, acabam por ofuscar sua principal razão de ser, que é nos fazer mergulhar na crise e na transformação de seu protagonista.

Riggan Thomson (Michael Keaton) é um ator que, anos atrás, atuou em uma franquia cinematográfica de super-herói. Agora, longe das telas e dos trajes colantes, tenta sair do ostracismo e, mais importante, ganhar prestígio artístico. Para isso, investe toda sua energia na adaptação para o teatro de um texto do conceituado escritor americano Raymond Carver (1938-1988). Peça que, além de adaptar, vai dirigir e atuar. Uma empreitada ousada, através da qual enfrentará uma crise consigo mesmo e com todos que o cercam.

No desenvolvimento dessa crise, a metalinguagem e o artifício ocuparão papel de destaque. A relação direta entre a história do personagem central e a do ator que o interpreta é a primeira delas. Entre o final dos anos 80 e início dos 90, Keaton estrelou dois filmes do Batman. Depois disso, não se pode dizer que sua carreira tenha caminhado na melhor direção possível. Esta relação metalinguística entre ator e personagem se estende até a óbvia semelhança que há na sonoridade das palavras Batman e Birdman.

Já o artifício, está naquilo que o diretor, o mexicano Alejandro González Iñárritu, leva às últimas consequências: o plano sequência. Uma estrutura narrativa apoiada na intrincada elaboração de um plano único, sem cortes, durante todo o filme. Efeito, claro, de evidente simulacro, uma vez que os cortes existem e muitos deles são perfeitamente perceptíveis, ainda que disfarçados. Nada, entretanto, que diminua a execução impecável de filmar longos minutos sem interrupção, quase sempre com atores em movimento e com mudanças de cenário.

A partir desta estrutura contínua, Iñárritu estabelece uma relação espaço-temporal bem amarrada, em que novamente a metalinguagem chama a atenção. No seu modo de compor a passagem do tempo, o filme, na sua sequencialidade, apresenta saltos temporais dentro do mesmo espaço cênico, criando um efeito que é naturalmente peculiar à narrativa teatral.

O artifício da continuidade temporal cria, assim, uma intensidade e um desconforto, enquanto acompanhamos a descida ao inferno que se torna a vida de Thomson. O modo como a câmera o segue provoca um efeito que transmite um tipo de claustrofobia que se intensifica gradativamente.

Contudo, apesar das qualidades, Birdman sofre do mal da pretensão. No trânsito de seu personagem por uma travessia íntima, exposta também externamente, com seu obsessivo desejo de se tornar algo que ele próprio não está convicto do que seja – e suas inseguranças, incertezas e fragilidades –, o filme resvala em temas diversos, com provocações que querem parecer elaboradas, mas não vão além da superficialidade.

Além da crise de identidade, tenta ainda trazer alfinetadas na crítica cultural, analisar a relação problemática entre pai e filha, traduzir os anseios de personagens secundários, discutir a superficialidade da indústria de entretenimento e ainda expor a dicotomia entre o cinema comercial de Hollywood e a aspiração à uma arte maior do teatro na Broadway. Nesta pretensão, não chega a se perder a ponto de não retomar seu centro narrativo, mas patina mais que o necessário sem alcançar nada de substancial.

Na verdade, sua principal substância fica perto de ser sufocada debaixo de tanto artifício e pretensão. Birdman é um filme sobre a transformação interna de seu personagem, uma transformação traumática que será metaforizada tanto física como fantasticamente, quase de forma esquizofrênica.

Aspectos como morte e renascimento, queda e ascensão, estarão figurados como parte de algo que será interno e grandioso, algo que, tendo sua boa dose de natureza humana, não deixa de trazer na essência o orgulho, a vaidade, o desejo de aceitação, o reconhecimento e a fragilidade inerente a tudo isso. É o que faz de Birdman um bom filme. Mesmo que sustentado por efeitos e aspirações maiores do que ele próprio.
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Birdman: Or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
Alejandro González Iñárritu
EUA, 2014
119min.

Trailer

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